Beckandroll


Madrugada fria pra cacete

“Madrugada fria pra cacete. Duas horas da matina e a galera alucinada pelas ruas. As gurias bonitas passando de lá pra cá totalmente entorpecidas. A gurizada do metal num canto, a gurizada do skate noutro. Cidade pequena tem dessas curiosidades. Todas os pequenos grupos urbanos se reúnem no mesmo local. Às vezes dava pancadaria, tiroteio, mas no geral acabava tudo bem. “E aí gurizada, vamos fazer o quê?”, já perguntava um mais entediado.”

"Sei lá, cara! Mas com esse frio do caralho que tá fazendo eu acho melhor a gente tomar uns goró!"

Gargalhada geral e rumamos inabaláveis para a birosca mais próxima. No caminho, passamos por alguns conhecidos e tentamos estabelecer contato com algumas mocinhas que passavam do outro lado da rua. Em vão, nem sequer olharam, caminhavam apressadas em direção ao ponto de táxi Entramos no bar e mostrei minhas cuecas para a galera que ocupava a primeira mesa logo na entrada do estabelecimento. Era referência a um caso recente que ocorrera na casa envolvendo um rapaz habituê do local que por infortúnio teve descoberto um terrível segredo: tinha o hábito incomum de não usar cuecas, porém no lugar delas usava calcinhas de mulher, rosas, vermelhas, pretas todas com muitas rendinhas e babadinhos. Fomos direto para o fundão do restaurante e pedimos uma pizza e duas cervejas MUITO GELADAS, apesar da temperatura estar próxima de zero grau. O italiano dono do lugar parecia uma tartaruga, era gordo e lerdo, muito lerdo, e sempre errava os pedidos. Se tu pedisse torrada sem presunto, ele trazia com presunto; se tu pedisse uma cerveja, ele trazia uma dose de uísque, mas era camarada e o lugar, afinal, era de todo agradável. Enquanto comíamos a pizza e tomávamos cervejas como se fossem, todas aquelas garrafas, enchidas apenas com ar, a TV instalada sobre a porta da cozinha sintonizava num programa noticioso. De repente o silêncio e uma nova informação era divulgada pelo bonequinho falante da tv, dava intermináveis explicações e os comentaristas teciam milhões de comentários profundos sobre os porquês do casamento do príncipe Charles com Camilla Parker-Bowles. Tudo isso é claro, permeado por entradas ao vivo mostrando como os participantes do mais novo reality show estavam empenhados em ganhar uma fábula em dinheiro.

Depois da pizza tomamos mais seis cervejas e resolvemos que ali já estava ficando chato e fomos procurar o que fazer na rua. O frio estava terrivelmente cortante naquela noite, o vento polar não somente nos dava a nítida sensação de trespassar nossas muitas e grossas roupas, como parecia atravessar nossos corpos, nossas almas, congelando tudo mais que tocasse. Então nos arrependemos de sair da birosca, que, apesar de fétida e perigosa, era quentinha, mas agora já era tarde demais. Procuramos outro lugar para entrar e encontramos uma boate que prometia shows de sexo explícito. Entramos e sentamos, pedindo bebidas e questionando o garçom sobre o tal show pornô. Ele nos disse que começaria em breve, anotou o pedido e sumiu por uma porta protegida apenas por uma cortina bagaceira, logo atrás do balcão.  Bom, o show não começou até hoje, e ainda estamos aqui esperando, sedentos por alguma boa emoção, morrendo de frio e tomando uma dose em cima da outra para esquentar, afinal as madrugadas continuam frias pra cacete.



Escrito por beckandroll às 20h33
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